QUEM ERA MARCONI LEAL? (Capítulo Último — Em que se retoma o assunto religioso, os bons acabam felizes e casados e os maus loucos, presos ou mortos)

Nada feito. Tentarei asteriscos da próxima vez. Enfim, agora vou de travessão e dois-pontos rematemos o texto:

Se toquei no assunto da permanência de hábitos religiosos e repeti ao longo de cinqüenta linhas no primeiro post desta interminável série o que todos já haviam entendido desde o primeiro parágrafo, com exceção talvez dos leitores de cabelos mais claros, foi por dois motivos.

Primeiro, para aparentar ter conhecimentos que não possuo. E, depois, porque é o que depreendo das visitas que chegam aqui através do Google, pitonisa contemporânea que, seguindo a moral dos tempos, desvirginou-se, caiu na vida e dá respostas sem que seja necessário imolar um único boi, satisfazendo-se com burros ou jumentos vivos mesmo.

A variação do fenômeno recorrente, nesse caso, é que hoje em dia as perguntas feitas ao oráculo têm forma e conteúdo semelhantes aos das respostas das sacerdotisas de Apolo no passado, o que se explica pelo fato de os antigos, sendo histórica e culturalmente atrasados em relação a nós, não terem ainda à época desaprendido a ler e escrever.

Mera questão de formalidade de rito. O fundamental é que a estrutura da fé persiste, fazendo com que dezenas de pessoas entrem aqui no blog semanalmente, depois de consultas as mais variadas ao deus, as quais demonstram continuarem inalterados os anseios primitivos do homem. “Da ku doi?”, querem saber os consulentes, nervosos. “Vargina tin xero de bacalhao?”, questionam-se, provavelmente agarrados a um boxe de peixaria. “Hemorrodia tein cura?”, indagam, de pé.

Em geral, me sinto frustrado ao ler essas formulações complexas por me faltarem os conhecimentos necessários à resposta (a não ser quando a dúvida é do tipo “Tamanhu du pinto importa?”, a que respondo com o óbvio: “Dependi du mercadu fornecedô”).

Porém, esses dias veio aqui alguém que trazia um questionamento a que não posso me furtar. “Quem era Marconi Leal?”, foi a indagação que, misteriosamente, surgiu em ortografia escorreita. Ora, apesar de nunca termos sido íntimos, conhecia um pouco o falecido, de maneira que, agradecendo o interesse, tento ajudar com o pouco que sei, abaixo.

Marconi Leal era um pedaço-d’asno que gastava minutos preciosos do dia escrevendo textos e os publicando num blog, sem receber absolutamente nada por isso. Morreu há algumas horas de um ataque, ao saber de sua morte por uma consulta feita ao Google.

E agora chega. Desisto. Vou ali perguntar à sábia ferramenta de busca qual era o sabor da pizza que comi na semana passada.

Leia também:

QUEM ERA MARCONI LEAL? (Capítulo III — Onde se conclui a saga da azeitona em terras brasileiras e, com a ajuda do bom Deus, se fala no erotismo dos parênteses.)

E as eleições americanas? Eu sei, prometi um ensaio sobre a história da azeitona em nosso país e a função erótica dos parênteses, mas já que estamos no assunto “minorias que menstruam”, não poderia me furtar a contar de minha alegria pela eleição das primeiras orelhas de abano afro-descendentes para comandante-em-chefe do exército americano.

Uma revolução para os povos anglo-saxões, registre-se, que em anos recentes vinham elegendo Bush, Blair e, por fim, Gordon Brown, ou seja, apenas orelhas de abano WASP como mandatárias. A última barreira a cair entre eles é a de chefe-de-governo que não tenha a letra “b” no nome, o que possibilitaria a Lula, enfim, eleger-se o primeiro par de orelhas de abano latinas da América do Norte ou da Europa e, por tabela… Chega. À azeitona.

Segundo os historiadores, a primeira azeitona chegou ao Brasil a bordo do cocô de um dos tripulantes da nau-capitânia (um grumete, ao que parece) em 1500, e logo se adaptou ao clima. De cara, adorou nossa feijoada, aprovou nossa caipirinha, adotou o fio-dental, o banho, e gostou tanto de ser assaltada que fixou residência.

A partir do começo do século XVII, a azeitona caiu definitivamente na boca do povo, sendo chupada por mestiços, comida por cafuzos, bolinada por aquele-outro-tipo-de-misturado-cujo-qualificativo-a-gente-aprende-na-escola-e-agora-não-lembro, enfim, em se plantando, tudo dava, como diria dela, aliás, um escrivão quinhentista.

Já em meados do século XVIII, temos notícia de uma azeitona eleita para a câmara municipal de Olinda, ganhando a vaga para Marco Maciel, que a disputava pelo recém-criado PFL (a vaga, não a azeitona, esclareço para evitar novas discussões em caixa de comentários).

Porém, seria apenas no reinado de Pedro II que as azeitonas conseguiriam finalmente se disseminar de norte a sul do país, graças às viagens, aos esforços e à disenteria crônica daquele representante da Casa de Banho de Bragança, único governante do país até hoje cujas cagadas renderam algum fruto.

De lá para cá, as azeitonas não fizeram menos que crescer e se estabelecer no Brasil, tornando-se de tal maneira necessárias à vida nacional que, por exemplo, o Heráclito Fortes não se pronuncia uma única vez no Senado sem que esteja com a boca cheia delas.

Fica aí, portanto, um exórdio sobre a matéria, a ser desenvolvido futuramente em livro. Quanto aos parênteses, o caso é mais simples: não tenho tara alguma por eles. Meu tesão mesmo é por colchetes. Pena que não goste de matemática e minha mulher se recuse a usá-los para satisfazer minhas fantasias, alegando se sentir meio presa e algo antiquada. Enfim, desculpas.

Aliás, por falar nela, quero dizer aos maliciosos que voltou para casa em torno das quatro horas logo, tecnicamente noite  e passa bem. Chegou com os cabelos molhados e exausta. Terrível o que a chuva constante e esse calor da primavera paulistana fazem com as pessoas.

E agora continuemos, finalmente, o assunto religioso introduzido no primeiro capítulo. Mas não neste exato momento, porque acabei ficando excitado e vou insistir mais uma vez com a questão dos colchetes. Amanhã, aguardem. (CONTINUA)

Leia também:

QUEM ERA MARCONI LEAL? (Capítulo II — Da Natureza dos Parênteses ou da Vida Sexual das Azeitonas)

Todos estão de prova como, havendo feito uma introdução performática que não me envergonharia num ménage com a Cicciolina e a Deep Throat e tendo comido já a pizza de alface com acerola, digo, escarola (ou aquilo é acelga? Tinha jeitão de acelga, sempre confundo), o que levou este post a se desdobrar, me preparava hoje para atingir o clímax com direito a “foi bom pra vocês”, um Hollywood sem filtro e papos descontraídos sobre a exegética kantiana e o livre-arbítrio em Lutero.

Eis, contudo, que dúvidas cheias de hemácias e glóbulos brancos se acumularam na mente dos leitores, que, incontinentes e ignorando a existência do Intimus Gel Seca Ultra Proteção com Abas, as fizeram jorrar na caixa de comentários, insistindo para que deite um pouco de meu vasto, uno e indivisível conhecimento sobre a natureza hormonal das azeitonas e a utilização de parênteses para fins sexuais. Parênteses, repito. Não curto incesto.

Resultado: me despeço da continuação do texto após um aceno breve e uma quebra de página no Word para tratar do assunto premente, de cuja solução depende a paz de espírito de dezenas de desocupados de norte a sul do país (acelga, definitivamente acelga, porque escarola não tem aquele rabinho.)

A discórdia generalizada, pelo que depreendo, deriva de um ponto fundamental: “Menstruariam as azeitonas?”, perguntam-se os leitores, entre olhares pasmos e queixos freudianos, enquanto por reduzidos segundos a Terra pára de girar.

E a resposta é: siiiim! “Deseja trocar seu carro zero km por um alfinete?”, insistem. E eu repito, apertando com as mãos o fone de ouvido: siiiim, Silvio! As azeitonas não só menstruam como têm uma vida sexual normal, como todo e qualquer representante das Sideroxylon densiflorum, qual é a grande surpresa? Ou vocês achavam que os azeitonos eram seres privilegiados que nunca enfrentaram uma TPM da parceira?

É cada uma, vou lhe contar (couve-flor! O nome daquilo é couve-flor, agora não resta dúvida; folhas largas, verdes, um caule fininho, enfim, mais couve-flor impossível; demoro às vezes para lembrar o nome desses alimentos genéricos, como o rábano e o capim-bambu, mas chego a estes momentos de certeza absoluta e me tranqüilizo: couve-flor, ponto).

Respondida a questão básica, dou agora, por caridoso e magnânimo, um pequeno histórico da azeitona, em colaboração com o Houaiss, de quem sou tão íntimo que chamo de pai. Segurem e embalem com carinho: fruto da oliveira, também conhecida em círculos mais efeminados por oliva, a azeitona é uma criatura sociável e amiga, que se enturma com todos na família das sapotáceas e mesmo na esfera mais ampla das árvores nativas da região subtropical da África.

Muito dada (é comestível), costuma se relacionar preferencialmente com frutos oblongos e subglobosos, desde que eles tenham uma conversa agradável e algum dinheiro no banco. Não tem preconceitos bobos: curte pretos, pardos, verdes, transgênicos e até o Michael Jackson, se pintar um clima. Transa sol e mar, gosta de um lance maneiro, coisa o negócio na real, quer dizer, o auê com ela rola na boa, tipo mó belê, tá ligado?

Aqui, sentem e respirem fundo, porque tenho certeza de que há uma informação referente ao assunto que vocês jamais sonharam adquirir e, no entanto, deveria, ela sim, provocar discussões muito mais acirradas, a saber: afinal de contas, onde está minha mulher?

Quase meia-noite e nada! Vou ligar pra ela. Amanhã continuo a história da azeitona e falo dos parênteses, ou seja, o mais tardar em março de 2009 acabo este texto, vocês vão ver. Oito, nove, dois, dois, quatro… quatro… cin… Aspargo! Ha! Taí, até que enfim. Garanto, cem por cento seguro, líquido e certo: aspargo. Putz, mas era evidente! Com aquelas anteninhas, pô, como é que eu não saquei antes? (CONTINUA)

Leia também:

QUEM ERA MARCONI LEAL?

As religiões estão em constante movimento. Não me refiro, lógico, apenas ao de flexão dos joelhos, de autoflagelação ou de mandar advogados ao fórum para se defender de processos por pedofilia.

Tampouco aludo exclusivamente àquela que, a meu ver, é a mais interessante das inquietações místicas: o sexo tântrico modalidade de arrebatamento espiritual que pratico e consiste, como se sabe, em comportar-se na cama como um iogue insaciável. Quer dizer, ficar imóvel e meditando para que o pinto consiga levitar, enquanto a parceira passa por prolongados períodos de jejum ou foge com um entregador de pizza vegetariana.

Falo, outrossim (nota: este “outrossim” foi psicografado por Marconi Leal através do espírito de Rui Barbosa), das mudanças periódicas por que passam as crenças humanas e as maneiras pelas quais elas se expressam, incluídos aí credos e mitos sociais variados, sejam simpatias e totens, seja a fé no mercado de ações ou no blog de Zé Dirceu.

Entretanto, essa perpétua transformação é de superfície, pois a piedade, como outras construções sociais, segue, em essência, procedimentos mais ou menos padronizados ao longo da História. Isso, pelo menos, é o que afirma minha sogra, que vem acompanhando os eventos ao vivo desde a Primeira Era Glacial.

Exemplo bem simples da constância de práticas coletivas com variações efêmeras: as mulheres modernas comem azeitonas e assim a maioria das gregas à época de Homero, não importa se hoje, para fazê-lo, precisam ser casadas e ter um marido disposto a abrir o vidro de conserva. O hábito ou a necessidade perduram e disso a religião, invento humano por excelência (está provado que sons de porcos no cio, apesar da semelhança que guardam com cultos neopentecostais, não constituem uma forma natural de rito sagrado), tampouco escapa.

O complicador, no caso acima, é que, salvo grave engano teológico e dogmático de minha parte, uma religiosa comeria as azeitonas sem chupar os caroços ou só chuparia os caroços se não estivesse menstruada. E, por favor, não me venham falar em renúncia à carne, túnicas roxas, Paraíso e outras tolices. Eu li meu Agostinho.

Outro exemplo típico do que descrevo, agora já entrando, depois de um sinal-da-cruz, no campo específico da fé: os antigos iam a Delfos com perguntas claras e precisas a respeito do futuro. “Vou casar? Serei rico? Quantos filhos vou ter?” E recebiam respostas igualmente coerentes e diretas, como: “Azeitonas quadriculadas em epítomes sob telhado vertical”.

Com base nessas indicações, decidiam sobre guerra, Direito internacional, política e sexo. Ou seja, mais ou menos como George Bush, com uma leve adaptação: quem dá as respostas atualmente é a CIA e eles não usam clâmide.

A azeitona, digo, o importante, no entanto, é que a prática de consultas a oráculos continua, respeitadas, como já disse (ou vocês estão surdos?), algumas poucas alterações.

Que significa isso? Ora, óbvio: significa que preciso fazer a pergunta à sibila de Cumas. Afinal, estendi tanto a introdução que, além de causar inveja a meus pares, os praticantes do tantrismo sexual, acabei esquecendo o que diria.

Enfim, continuo o texto amanhã. Até porque está na hora do jantar e nós pedimos pizza de alface com escaro… Ué, cadê minha mulher? (CONTINUA)

———————————

NINGUÉM SE ENTENDE: Adivinhem. Aconteceu outro mal-entendido daqueles que as pessoas que querem posar de vítimas, aparecer ou, guiadas por algum desejo mórbido, levar os outros ao descrédito, sem razão alguma, insistem em chamar de “plágio”. Milton Ribeiro escreveu isto e um inocente muito desatento publicou isto. Quer dizer, das duas, uma: ou os mal-entendidos estão se profissionalizando, ou Milton Ribeiro encontrou finalmente sua alma gêmea. Confiram.

Leia também:

DEPOIMENTO DE UM HUMORISTA ANÔNIMO

Fazer humor, no Brasil, consiste basicamente em cair de uma cadeira ou soltar um pum. De preferência com ruído. Daí algumas pessoas em nosso país preferirem ser chamadas de cornas a humoristas. Aliás, chamar alguém de corno também consiste numa forma especialmente brasileira de provocar risos. Sobretudo se você não é o corno. Ou não sabe. O que, convenhamos, é mais provável.

Acontece que até para cair de uma cadeira é preciso certa habilidade. Eu, por exemplo, não sei cair de cadeiras, confesso. Já tentei. Não tem a menor graça. E ainda dói (o que não deixa de ser estranho). Conheço pessoas, no entanto, de tal modo especializadas em queda de cadeiras que poderiam fazer da arte esporte olímpico. Tão interessante quanto o badminton, pelo menos, e sem dúvida mais estético que o jiu-jítsu.

Tempos atrás conheci uma profissional da queda de cadeiras de técnica absolutamente embasbacante, uma graça incomparável, dignificava a atividade, impunha respeito. Súbito, caía de frente, sem dizer uma palavra. E depois da queda permanecia imóvel de um jeito que era esperar surgissem aquelas marcas que a polícia faz ao redor de um cadáver. Bebia, bebia muito. Agora imaginem se fizesse o número sóbria! Quedas estupendas, repito. Pareciam espontâneas, tamanha a perfeição. E clássicas também. Tipo Roma, final do século V. Ou o diabo, em Dante.

Outro dia soube que morreu após concussão cerebral. Enfim, desses infortúnios próprios da condição humana, a morte chega quando menos se espera, sem razão aparente etc. Não fosse o acaso, poderia ter seguido a vocação durante muitos anos ainda. E não duvido hoje estivesse caindo de telhados e talvez até de um terceiro ou quarto andar. Creiam, vocês precisavam ver a moça.

Quanto a mim, nada. Já tentei com bancos e estofados. Deu na mesma. Entretanto, devo dizer, por justiça, que sou ótimo em derrubar objetos. Se quiser quebrar o que quer que seja algum dia, desde que portátil, pode me entregar. Independe de tamanho. Preciso de segundos, tal a perícia que adquiri na função. Comecei com pratos e talheres de plástico na infância e logo passei a quebrar meus próprios copos de vidro. Tenho o dom, modéstia à parte. Uma coisa minha.

Entre outros, constam de meu currículo: três bibelôs da dinastia Ming, Museu do Povo, Pequim, outubro de 1987; quatro pratos de flandres, Cadeia do Povo, Pequim, outubro de 1987 a março de 1991; um troféu da Copa da UEFA, Estádio Municipal de Barcelona, janeiro de 1993; dois Turner recém-adquiridos, Museu do Louvre, Paris, janeiro de 1997; e um pote de porcelana ordinária, hall do cemitério São Sebastião, cremação de papai, maio de 1998.

O triste é que minha mulher não aprecia o que faço. Aquela história: santo de casa não faz milagre. Há dois anos estraçalhei um vaso de cristal, herança dos bisavós turcos dela. Estraçalhei, percebam, não apenas fissurei ou parti em pequenos pedaços. A coisa virou pó! E ela, em vez de elogiar já não digo agradecer , ficou chateada, dias sem falar comigo. Entenda, se puder.

Por conta disso (de que adianta conquistar o mundo e não agradar aos familiares etc.?), por conta disso, dizia, venho tentando o pum como alternativa e, para ser franco, obtendo algum sucesso. Meu maior feito até o momento foi o último que soltei, final de semana passado, na cerimônia de casamento da nossa filha Isoldinha. Entrando com ela na direção do altar. Diante do padre. Lindo! Consegui ser ouvido em toda a nave e isso apesar de estar tocando Mendelssohn. Agora, vejam: àquela mesma noite minha esposa pediu a separação. Quer dizer, impossível agradar às mulheres.

Leia também:

CHEZ LES LEAL (3)

6. So Near, Yet Sofá

Eu sei, vocês não acreditaram. “Quanto exagero! Nossa, ele é desumano! Por que dizer barbaridades da moça, meu Deus? Ela é tão bonitinha, meiga e simpática. E ainda por cima tem olhos azuis. Uma moça de olhos azuis, imaginem, fazer isso por conta de uma bolacha!” Pois é, não os culpo. A culpa é de Walt Disney e dos irmãos Grimm.

Aí está, no entanto. A última fotografia, tirada momentos antes da câmera digital ser degredada para o congelador, registra a coisa de maneira inelutável: sou casado com uma descendente de poloneses. Vocês provavelmente desconhecem a genealogia dos grupos humanos em profundidade, de modo que informo: trata-se de um povo religioso ao extremo, seguidor austero da bíblia. Sobretudo, no Velho Testamento, da lei de talião.

De resto, podemos observar na imagem algo extremamente estarrecedor e revoltante. Mais estarrecedor e revoltante, digo, que o tamanho de minhas bochechas, o formato do meu nariz (ou aquilo é um jambo?), os pêlos de bunda de urso de minha cabeça e o dom performático que tem o meu rosto de mimetizar o assunto de meus sonhos (àquela noite, sonhava com capivaras, reparem).

Falo do resultado da incúria da juventude e do desprezo pela sapiência paterna, evidente no flagrante acima, ao menos aos mais sensíveis. Ao saber do meu noivado, o velho já me aconselhara: “Filho, prefira as búlgaras de bigode. São moças mais tratáveis”.

Que fazer? Isso que dá levar em consideração, na hora do casamento, momento tão importante na vida dos prisioneiros e forçados, fatores menores como amor, compreensão, carinho e outras ninharias.

Enfim, seja como for, a verdade é que não posso reclamar da vida que temos em comum. Até porque, se reclamar, apanho. Além disso, um relacionamento maduro precisa passar por cima de dificuldades de toda monta: desentendimentos, cobranças, ciúmes e sovinices. Particularmente a sovinice dos produtores de sofás de mola dura e pouco acolchoados.

Antes de tudo, na vida a dois, é necessário levar em conta sentimentos superiores e objetivos nobres, sagrados. Um paladar saciado, por exemplo. E vocês têm que experimentar a torta alemã que ela faz.

No final das contas, se estamos juntos é por algum motivo, pois, se está correto o axioma, Deus escreve certo por linhas tortas. E tenho razões de sobra para acreditar nele. Ainda que, desconfio, uma das linhas se chame coluna e seja justamente a das minhas costas.

Leia também:

CHEZ LES LEAL (2)

4. Onde se Comprova a Verdade do Eclesiastes: Tudo é Vaidade Debaixo do Teto do Primeiro Andar

Aqui, podemos ver como três criaturas extremamente exibidas atrapalham a foto que tento tirar da minha estante de livros. E olha que tinha colocado as edições de Goethe, Homero e Virgílio, todas no original, com as capas viradas para frente! Incrível o que as pessoas fazem para aparecer.

Este à esquerda, sobre uma falha acentuada do piso, é Clodoaldo, que convidei só para ter alguém com o nariz maior que o meu no grupo. A sua frente, agachada para poder dialogar com ele, Jackie, sua mulher, outra integrante das Masoquistas Anônimas que veio à reunião. Mulher de coragem, porém, ao contrário de Dona Branca, mostrou o rosto. Veja que santa. Ela ainda ri!

O terceiro é Edu. Puxou a camisa acintosamente, notem, só para cobrir o dicionário de suaíli ali na última prateleira, ao lado do Houaiss. Por algum motivo, achou que jogaríamos futebol depois do jantar, daí ter vindo de bermuda e chuteiras. Talvez por esse detalhe e apesar de ter ficado pouco tempo na festa, causou forte impressão nos presentes. Principalmente no piso de madeira.

A mão com copo não conheço. Acho que entrou de penetra. Ou talvez seja do jacaré, não sei. Como que jacaré? Já falei, pô!

 

5. “Essa Coisinha Cheia de Botões? É? Não! Celular? Ahnnn! E se Come?”

Outra tentativa frustrada de fotografar a estante. Vejam de que maneira patética Clodoaldo e Edu, fingindo que nunca viram um celular na vida, procuram afetar espontaneidade e atrapalham voluntariamente a foto.

Perceba também que, desgostosa e solitária, a estante já havia bebido um pouco além da conta. Ou isso, ou se exibia para a geladeira, realizando seu número circense predileto, em que imita a Torre de Pisa.

Este em primeiro plano, que faz questão de mostrar uma glote recém-adquirida, é Léo, filho de Sandra Pontes, que talvez seja aquela sem nuca na terceira foto, mas acho que não, porque não encontramos nuca nenhuma no dia seguinte e ela chegou com uma, tenho certeza.

Agora me digam: quem é que tá ali em segundo plano, ao lado de Edu e Clodoaldo? Ahn? Hein? Ha! Eu disse que o jacaré tinha vindo, rapaz, não tô louco!

 

(ATENÇÃO. CHEGAM NOTÍCIAS DO HADES DOS APARELHOS DIGITAIS QUE DÃO CONTA DE QUE TÉCNICOS ACABAM DE RETIRAR UM PEDAÇO DE HAMBÚRGUER PERDIGÃO TEMPERO SUAVE E MEIO SACOLÉ DE MORANGO DO INTERIOR DE NOSSA FALECIDA MÁQUINA. POR ACASO, RECUPERARAM COM ELES UMA DERRADEIRA FOTO, REVELADORA DO FINAL DA FESTA E, QUIÇÁ, DO MUNDO COMO O CONHECEMOS. AGUARDEM. PUBLICO ESSA ÚLTIMA IMAGEM DO ENCONTRO AMANHÃ.)

Leia também:

CHEZ LES LEAL (1)

Dias atrás, após negociações intensas com as baratas e algum oferecimento de propina aos ratos, abrimos a mansão para receber convidados ilustres, queridos e simpáticos e Branco Leone também. A reunião foi barulhenta, desnecessária e desagradável. Essa, pelo menos, é a opinião consensual dos vizinhos.

Abaixo, descrevo os cinco momentos mais marcantes do encontro. Coincidentemente, os únicos que restaram registrados depois que a câmera fotográfica, por motivos que só um expert em aparelhos digitais saberia explicar, resolveu se esconder dentro do congelador, de onde foi retirada no dia seguinte com a pele ótima. Não funciona para mais nada, é verdade. Em compensação, é agora a única em sua categoria com duas opções de sabor: acém ou sorvete de baunilha.

 

1. O Surdo e a Fera

Recém-saído da caverna que habita há oito anos, ainda desacostumado à luz e sob influência de substâncias não recomendadas pelo Ministério da Saúde, como Nova Schin quente, Diego Jock medita sobre a natureza dos fótons e sua relação com a filosofia de Heráclito de Éfeso.

Ao lado de Diego e em sua clássica posição Jeannie é um gênio, Branco Leone tenta controlar os efeitos da gravidade sobre corpos embriagados e a queda dos cabelos utilizando a força do pensamento. Não consegue, é óbvio, pois se trata de coisa comprovadamente impossível. Sobretudo para quem é incapaz de produzir qualquer tipo de pensamento.

Por fim, completando o trio, vemos a barriga de Branco Leone, que não só veio, conversou com todos e se divertiu bastante, como quando o Surdo do Cambuci precisou voltar para casa mais cedo por conta de um acidente com seu fraldão geriátrico, permaneceu na festa, divertindo os convivas, sempre simpática.

 

2. Do Amor Entre Iguais e da Lógica dos Números

Aqui, vemos o momento preciso em que Taja Passos demonstra empiricamente dominar a tabuada do cinco para uma Luciana que parece não acreditar muito.

Fala a verdade, quantas você já tomou? pergunta esta.
Só dez sinaliza Taja.

As roupas ao fundo são de Branco Leone e Diego Jock, que, após terem passado a noite conversando, entre risinhos e olhares cúmplices, sumiram durante meia hora e retornaram suados e exaustos. Provável resultado do calor de 14 graus que fazia àquela noite.

 

3. O Trabalho Enobrece as Mulheres

Ah, minha foto preferida! Pega em flagrante comendo bolacha enquanto as convidadas se matavam de trabalhar na cozinha, minha mulher demonstra toda sua capacidade de cooperação e sentido de grupo, além da esmerada educação gaúcha, tradicional, que recebeu. Ao perceber a câmera, alegre, fecha rapidamente a boca e utiliza código visual próprio dela para indicar que terei dores nas costas na manhã seguinte.

A de nuca, ao fundo, é a coitada que teve o desprazer e a imprudência de casar com Branco Leone. E não apenas isso, como convive com ele há mais de sete anos sob o mesmo teto, o que em algumas sociedades é considerado atentado gravíssimo ao pudor e dá até cadeira elétrica. Virou-se de costas e pediu para não ser identificada, porque humilhação também tem limite.

A sem nuca não tenho a mínima idéia de quem seja, pois àquela altura já estava embriagado. Ou ninguém tá vendo a sem nuca? Ali, gente, do lado do jacaré cor-de-rosa. Ora, que jacaré!

Essa foto foi um oferecimento dos colchões Ortobom.

(CONTINUA AMANHÃ)

Leia também:

CAVALOS-MARINHOS

É esperma!

Ui, que nojo! Eu disse pra gente não vir aqui, a comida é ruim, cara, o uísque é falsificado e agora essa: a pessoa corre o risco de voltar pra casa grávida. Onde? No purê ou no arroz?

Não, naquela composição…

Veja só o tipo de gente que freqüenta o local. O sujeito aproveita o jantar pra se masturbar sobre o arranjo de flores. Pensando numa alface, provavelmente. Vam’bora, vem.

Senta aí, tô falando da composição, da música, aquela musiquinha… daquele menino, o… Russo…

Que russo, Pedro Paulo?

Aquele que era gay, como é o nome dele?

Nureyev?

Renato… Renato Russo. Pois então, aquela musiquinha que tava tocando agora há pouco…

Te lembrou de esperma? Olha, desconheço teu passado sexual e não falo nada sobre desempenho, mas devo dizer que comigo a trilha sonora dos teus relacionamentos melhorou bastante, ao que parece. Até hoje, pelo menos, venho conseguido gozar sem ter que tapar os ouvidos.

Você sabe por acaso de que música eu tô falando?

Não, mas se é de Renato Russo deve envolver versículos bíblicos, índios, alguns erros de concordância e durar pelo menos dez minutos.

Que preconceito. O rapaz até que não era dos piores.

Sua escala de piores abrange Humberto Gessinger ou você pára em Kid Abelha? A minha inclui até Marquinhos Moura e Kátia, e digo a você que o rapaz tá pela base, mais pra perto da Sarajane. Aquela dos cavalos-marinhos então é de matar! O sindicato dos cavalos-marinhos devia exigir reparação. (Cantando.) “Cava-looos… mari-nhooos…” Por que o infeliz enfiou cavalos-marinhos ali no final da música, meu Deus? Tanto fazia dizer cavalos-marinhos como bananas-da-terra ou caroços de jaca, quer dizer, o negócio não tem sentido. (Cantando.) “Sarga-çooos… verdi-nhooos…”

Tá, tudo bem, não falo da dos cavalos-marinhos. A dos cavalos-marinhos devia ser citada na Corte Internacional de Haia. E também não tô me referindo à música em si, se é que se pode chamar rock de música sem que o termo englobe também o ronco de motor de caminhão e aquele tssss de quando se abre latinha de cerveja. Mas você há de convir que essa do esperma, por exemplo…

(Cantando.) “Para-lééé… lepípe-dooos…” Incrível. Isso merecia um estudo psicanalítico. Deve ter algum sentido esotérico, porque o sujeito não chega assim de repente e diz “cavalos-marinhos” do nada. Tipo: “Obrigado, doutor. Boa noite e cavalos-marinhos pro senhor também”. Ou: “O tempo tá péssimo hoje. Ou chove, ou cavalos-marinhos; das duas, uma”. Ou ainda: “O ceticismo contemporâneo, resultado da desconstrução oitocentista da moral cristã, empreendida, entre outros, por Nietzsche, tem como conseqüência, de um lado, o hedonismo pós-moderno e, de outro, cavalos-marinhos”. Não dá!

Você tá escutando o que eu tô dizendo?

(Cantando.) “Arroz beeem… fresqui-nhooo…” Ou então foi promessa. Você sabe, o sujeito morrendo e tal, se apega a tudo. Alguém deve ter dito: “Coloca ‘cavalos-marinhos’ numa letra. ‘Cavalos-marinhos’, não esquece. É batata”. Ou, por fim, vai ver que, pensando no Paraíso, decidiu se filiar a uma ONG que cuida de bichos que têm nome composto e referente a um dos quatro elementos da natureza. Pena que morreu cedo, senão teria escrito algo bonito sobre as lagartas-de-fogo também. (Cantando.) “Lagar-taaas… de fogui-nhooo…”

Esquece. Só tava querendo explicar que aquela que diz: “Aquele gosto amargo do teu corpo ficou na minha boca por mais tempo” etc., quer dizer, essa que acabou de tocar aí, deve ser uma referência a esperma, você não acha? Digo, o sujeito era gay e, enfim, pode ter sido uma maneira sutil de…

Ah, eu sei de qual você tá falando! Por que não disse logo? É a do barco a motor! Putz, a do barco a motor não dá, Pedro Paulo. “Tão certo quanto o erro de ser barco a motor e insistir em usar os remos é o mal que a água faz quando se afoga”. Pede a conta. Essa metáfora do barco a motor, vou te contar, nem Gilberto Gil em suas melhores entrevistas. A poesia fonética de Daniil Kharms faz mais sentido. Fico imaginando uma composição de Renato Russo com Djavan. Seriam necessários uma junta de lacanianos e um cachimbo de ópio pra entender. A conta, anda. Ah, e não precisa pedir sobremesa. Quando chegar em casa, vou comer algo mais saudável. Nossa coleção de Cole Porter, talvez.

Peraí, por que cê tá levantando? Deixa de…

(Cantando.) “Vou no bããã… nheiri-nhooo…”

Leia também:

SURUBA DOS SANTOS (08/09/2008 – 30/10/2008)

Suruba se foi, mas manteve a coerência até o fim.

Viveu abrindo buracos, desce a um derradeiro após a morte.

Benditos os vermes, que serão os últimos a comê-la.

Convido todos para a cerimônia, a ser realizada aqui.

Leia também:

SURUBA NO LEITO

Não queria falar nada, para não assustá-los, mas a verdade é que… Bem, não há uma maneira fácil de dizer isso, então… Eu, o que acontece… o que acontece é que eu preciso… Suruba, a nossa querida Suruba… ela… Suruba tá morrendo. Pronto, disse. Os médicos não lhe dão mais de vinte e quatro horas de sexo.

Morre em função de uma moléstia incurável, bastante comum no Brasil. Alguns têm preconceito contra o termo, mas eu falo: tá morrendo de preguiça.

Não que ela esteja doente. Foi vitimada pela enfermidade que atinge os autores da novela. Estes, ironicamente, estão saudáveis, sorridentes, corados, fazendo planos para o futuro. Um deles, inclusive, é parar de escrever a novela.

Os estertores da heroína começam aqui. E amanhã acontece o impensável até mesmo para os mais tarados: uma Suruba sob sete palmos de terra. Confiram.

Leia também:

LIVRO

Sei que muitos de vocês devem estar pensando que morri. Sinto informar que não. Ou, se morri, devo dizer que o inferno é bem pior do que pintam os teólogos, pois se parece bastante com São Paulo.

A razão de meu afastamento é outra: a falta de critério do mercado editorial brasileiro, que leva uma editora nacional a se dispor a publicar meu primeiro livro para adultos. Uma temeridade sob todos os sentidos, a começar pelo fato de que vou escrever para uma faixa etária acima da minha.

Seja como for, a verdade é que nos próximos meses deixarei a crítica estéril e farei também minha parte para piorar a literatura nacional. Tarefa difícil, tudo bem, mas estou me empenhando. Já comecei, inclusive, a abolir a pontuação e a inventar neologismos. O próximo passo é abandonar os clássicos e ir ao festival de Parati dissertar sobre algum assunto que desconheça. Estou pensando em partículas subatômicas ou novela das sete.

Em suma, estive trabalhando no livro e agora que voltei a dormir mais de uma hora por dia e parei de ter pesadelos com crases e travessões (um dia ainda conto como é ser degolado por um ponto-e-vírgula), pretendo voltar à normalidade. Digo, ao meu natural, já que, segundo meu psiquiatra, a normalidade está para mim como a música para Ivete Sangalo. Com pernas mais finas, claro.

Superada momentaneamente, pelo menos, a obsessão com gramática e ortografia, pretendo retomar o blog amanhã ou depois. Portanto, esp… Peraí, “obsessão” é com três “ss”? Impossível. Vou ao Aurélio e já volto. Aguardem.

Leia também:

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (14)

A idéia de que a humanidade se constitui quase que inteiramente de idiotas é extremamente desabonadora para os idiotas.

***

O pensamento racional está para a vida biológica como a masturbação está para a vida sexual.

***

A Suécia é um país tão perfeito que lá os livros de auto-ajuda ensinam o sujeito a ser fracassado e infeliz.

***

O Brasil é o único país do mundo onde há mais escritores que pessoas alfabetizadas.

***

Obra Aberta é um título de livro enganador. Meu exemplar, por exemplo, comprado em 92, continua fechado até hoje.

***

Todo o modernismo brasileiro tem um único significado: trata-se de uma tentativa de levar José de Alencar à UTI. E isso, mesmo ante o fato inelutável de que José de Alencar já nasceu morto.

***

Grosso modo, a Espanha desenvolveu sua tradição literária a partir de Cervantes; a Inglaterra, de Shakespeare; a Itália, de Dante; Portugal, de Camões. Seguindo o exemplo desses países e possuindo um gênio como Machado de Assis, o Brasil também desenvolveu sua tradição literária: a partir de José de Alencar.

***

Em música popular, me atenho ao Great American Songbook. Na clássica, acho Beethoven muito moderno. Meu conceito de literatura abrange apenas os movimentos surgidos até os Oitocentos. Nas artes plásticas, não acompanho o produzido depois de Turner. E, em se tratando de mulheres, gosto das com barriga. Por isso, apesar do susto, respirei aliviado ao ser assaltado outro dia. Quando vi dois sujeitos me cercando de arma em punho, pensei, a princípio, que eram técnicos do Ibama.

Leia também:

PEQUENA HISTÓRIA DO FUTEBOL

Esporte mais popular do mundo, o futebol é praticado desde a Antiguidade. Sabe-se, por exemplo, que o time capitaneado por Hércules derrotou o selecionado de Lerna e mais outras onze equipes, tornando-se o primeiro campeão da Liga de Delos. Não se pode esquecer tampouco o esquadrão da Grécia vencedor de uma peleja mitológica contra Tróia, terminada aos cinco anos do segundo tempo, quando os gregos conseguiram penetrar a cidadela adversária com um gol de Cavalo.

No Oriente, havia o Campeonato Pan-mesopotâmico, envolvendo potências como Egito, Babilônia, Tiro e Sidon, e sempre vencido pelos fenícios, que escreviam as regras a seu favor. Por esse tempo foi que Davi derrotou Golias com um tirombaço de direita, conquistando a cobiçada Copa de Canaã para os hebreus. O que leva muitos judeus a dizerem até hoje que Deus é israelita.

Entre os romanos, o clássico Cristãos x Leões (o chamado Letão) lotava o Coliseu. Patres familias de toda a península se reuniam nos finais de semana, iam ao estádio, comiam, bebiam e torciam, exatamente como agora. Também como atualmente, a comida nesses ambientes era de péssima qualidade. Sobretudo para os leões.

Na Idade Média, por sua vez, uma pequena modificação foi introduzida no esporte, que passou a ser praticado com bala de canhão. O conceito permanecia o mesmo, com a diferença de que a bola é que chutava os jogadores. Foi, aliás, indignado com isso e desejando um retorno às antigas normas futebolísticas que o escrete composto por Dürer, no gol; Da Vinci, Michelangelo, Shakespeare e Montaigne, na defesa; Rabelais, Rembrandt, Cervantes e Rafael, no meio-campo; e Camões e Cláudio Adão, no ataque, inventou o Renascimento F.C e o chamado “futebol-arte”.

Porém, foi apenas a partir de 1632, quando Galileu descobriu que a bola era redonda e girava em torno do seu eixo que o futebol se estabeleceu como hoje o conhecemos. Até aquele momento, na falta dela, muitas partidas eram disputadas com pepitas de ouro e caixotes de especiarias, o que fazia do esporte uma atividade dolorosa, perdendo apenas, em grau de insalubridade, para outros desportos em voga, como criticar o papa e contrair Peste Negra.

Por conta dessa novidade, a International Inquisition Board, órgão que controla o futebol no mundo, afirmou que Galileu havia ido longe demais e, pior, que só havia um marcador entre ele e a linha de fundo. Galileu rebateu a acusação, dizendo que quem estava na banheira, muito antes dele, era Arquimedes. Uma mentira facilmente contestada, pois àquela altura Arquimedes estava morto em campo.

Não houve argumento, o Tribunal de Santa Justiça Desportiva mandou o cientista para o calabouço mais cedo e ameaçou escalá-lo na lateral para o próximo jogo entre Céu e Inferno. Vendo que lançavam uma bola na fogueira, Galileu voltou atrás e admitiu que a esfera não apenas era quadrada, mas cabeluda e cheia de furinhos.

Seria preciso esperar mais algumas décadas para que o meia-direita Isaac Newton desse novo impulso ao esporte. Impulso que o levaria bem mais longe não fosse a força de atrito. Cheio de conceitos modernos, Newton adita gravidade ao ludopédio, outrora tido como passatempo frívolo, utilizando-se de variáveis como espaço e tempo de partida e determinando que uma bola lançada para cima retornasse ao gramado com a mesma velocidade do chute inicial.

Contudo, apesar de modernamente inventado por um inglês, os bretões não conseguiram desenvolver o futebol a contento, em função de sua pouca habilidade. Você pega o selecionado britânico do século XVIII, por exemplo, e só encontra perna-de-pau, a começar por Barba Negra.

No final do século XIX, Charles Miller trouxe duas bolas e um par de chuteiras para o Brasil e aconteceu o que todos já sabem: elas foram roubadas. Mas isso não fez esmorecer o ânimo desse bravo pioneiro. Setenta e duas bolas, 527 impostos de importação e 126 pagamentos de propina mais tarde, após muito esforço, Miller finalmente conseguiu explicar aos nativos o primeiro fundamento do esporte, ou seja, que a bola não é comestível.

A partir dali, o futebol teve um crescimento vigoroso no país, que conquistou cinco títulos mundiais e causa inveja às demais nações, pois é o único que conseguiu derreter sua própria taça. Esse sucesso faz com que o jogador de futebol, ao lado do dinheiro não declarado, seja atualmente nosso principal produto de exportação.

Leia também:

GUIANA

Se tem uma coisa com que não me conformo, taí. Você pode me dizer, afinal de contas, o que é uma Guiana?
Uma espécie de clitóris, só que encravado na América do Sul.
Não, não pode ser um clitóris, senão os ingleses não teriam achado. Além do mais, todo mundo sabe que o clitóris da América do Sul é o Panamá. Possui formato parecido e, devidamente manipulado, dá um prazer intenso. Pelo menos para os EUA.
A Guiana é um Sergipe que cresceu, encontrou seu Suriname encantado, casou e saiu de casa.
Nesse caso seria um ménage à trois. Porque são duas Guianas. Uma delas, ainda por cima é francesa. E o francês, você sabe, é um povo que gastou fazendo sacanagem todo o tempo em que deveria estar tomando banho.
Por que essa preocupação com a Guiana agora, hein? Espero que não seja porque tá com mais um daqueles grandes planos para o passado do Brasil. Da última vez, começou querendo uma saída pro Pacífico no século XIX e acabou deprimido por conta da derrota da Confederação do Equador.
E não era pra ficar? Pernambuco se tornaria maior, mais rico, influente e incorporaria boa parte da região, o que seria excelente pra nós, mas bem melhor para os paulistanos, que talvez conseguissem finalmente decorar localização e nome de todos os estados nordestinos.
No que dependesse de ti, até Plutão faria parte do Brasil. Não sei que benefícios isso poderia trazer. A não ser pro Piauí, que deixaria de ser considerado o local mais inóspito do país.
Plutão, não digo. Mas só um insensível pode aceitar sem nostalgia o fato de a lua não fazer mais parte da Terra.
Megalomania típica de pernambucano. O pernambucano é o único povo que eu conheço que define Pangéia como “primitivo nome do Recife”.
Ah, sei. E o gaúcho, que acha que a Santíssima Trindade se compõe de Pai, Filho, Espírito Santo e Bento Gonçalves? Sem falar que lá o Brasil é conhecido como Rio Grande do Norte. E, olha, não queria chocar você, mas já que a gente tocou nesse ponto, preciso informar: ao contrário do que vocês pensam, quando eles falam numa dupla de filósofos que revolucionou o conceito de história e pariu o comunismo, não estão se referindo a Kleiton e Kledir, viu?
Isso eu já sabia. Tão falando de Caju e Castanha. E é uma pena que a idéia de usar pandeiros pra derrotar o capitalismo não tenha sido implantada, porque quando eles abrissem a boca pra cantar, a burguesia toda pediria exílio na embaixada de Liechtenstein.
Oh, mas falou a representante de um estado de rica tradição musical! Inventor do vanerão, que é como se chama a música paraguaia cantada em português por um sujeito de ascendência germânica. Também, que esperar de um lugar fundado por paranaenses, ou seja, por paulistas com um bom sistema de transporte e tendência mais acentuada à depressão?
O vanerão pode não ser das músicas mais criativas, mas pelo menos a gente não aboliu as consoantes de nossas composições.
Nem poderiam, senão seria impossível escrever nelas o nome dos compositores. Meu maxilar dói toda vez que penso em pronunciar o nome do seu avô. E isso apesar de eu só conhecer as primeiras 26 letras do alfabeto. Além do mais, quem inventou o método “aê-ô-ih-uh-uh” de composição foi o baiano. E a Bahia não faz parte do Nordeste, a não ser que se realize um grande esforço de imaginação e, depois disso, coloque alguma purpurina por cima.
Olha, não vou discutir contigo. Fica aí com esse mapa, pensando na Guiana. E vê se dessa vez consegue pelo menos a Bolívia pra gente. Ali por volta do século XVII, se não for pedir muito. Aliás, falar nisso, tu não tinha entrado na internet especificamente pra ver o preço das passagens?
Desisti. Não vale a pena ir a Londres essa época do ano. Não quando se sabe o que o Império Britânico fez conosco.
Tu tá te referindo a algo recente, como, talvez, o apoio à independência do Uruguai, né?
Não, isso eu já superei. O problema é que, por puro exibicionismo, eles nos roubaram a Guiana. A Guiana, imagine só! Pergunto a você: o que é uma Guiana?
Agora me parece claro: um bom motivo pra se pedir a separação.

Leia também:

Page 1 of 2012345»...Last »
    Conheça também:

    Visite os outros blogs:

    O Pensador Selvagem anuncia:

    Propaganda: