QUEM ERA MARCONI LEAL? (Capítulo Último — Em que se retoma o assunto religioso, os bons acabam felizes e casados e os maus loucos, presos ou mortos)
Nada feito. Tentarei asteriscos da próxima vez. Enfim, agora vou de travessão e dois-pontos — rematemos o texto:
Se toquei no assunto da permanência de hábitos religiosos e repeti ao longo de cinqüenta linhas no primeiro post desta interminável série o que todos já haviam entendido desde o primeiro parágrafo, com exceção talvez dos leitores de cabelos mais claros, foi por dois motivos.
Primeiro, para aparentar ter conhecimentos que não possuo. E, depois, porque é o que depreendo das visitas que chegam aqui através do Google, pitonisa contemporânea que, seguindo a moral dos tempos, desvirginou-se, caiu na vida e dá respostas sem que seja necessário imolar um único boi, satisfazendo-se com burros ou jumentos vivos mesmo.
A variação do fenômeno recorrente, nesse caso, é que hoje em dia as perguntas feitas ao oráculo têm forma e conteúdo semelhantes aos das respostas das sacerdotisas de Apolo no passado, o que se explica pelo fato de os antigos, sendo histórica e culturalmente atrasados em relação a nós, não terem ainda à época desaprendido a ler e escrever.
Mera questão de formalidade de rito. O fundamental é que a estrutura da fé persiste, fazendo com que dezenas de pessoas entrem aqui no blog semanalmente, depois de consultas as mais variadas ao deus, as quais demonstram continuarem inalterados os anseios primitivos do homem. “Da ku doi?”, querem saber os consulentes, nervosos. “Vargina tin xero de bacalhao?”, questionam-se, provavelmente agarrados a um boxe de peixaria. “Hemorrodia tein cura?”, indagam, de pé.
Em geral, me sinto frustrado ao ler essas formulações complexas por me faltarem os conhecimentos necessários à resposta (a não ser quando a dúvida é do tipo “Tamanhu du pinto importa?”, a que respondo com o óbvio: “Dependi du mercadu fornecedô”).
Porém, esses dias veio aqui alguém que trazia um questionamento a que não posso me furtar. “Quem era Marconi Leal?”, foi a indagação que, misteriosamente, surgiu em ortografia escorreita. Ora, apesar de nunca termos sido íntimos, conhecia um pouco o falecido, de maneira que, agradecendo o interesse, tento ajudar com o pouco que sei, abaixo.
Marconi Leal era um pedaço-d’asno que gastava minutos preciosos do dia escrevendo textos e os publicando num blog, sem receber absolutamente nada por isso. Morreu há algumas horas de um ataque, ao saber de sua morte por uma consulta feita ao Google.
E agora chega. Desisto. Vou ali perguntar à sábia ferramenta de busca qual era o sabor da pizza que comi na semana passada.
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